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Dicas de Saúde / Psicologia
 
Pobre língua portuguesa
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Em um país democrático, cada um pode ter suas idéias e tentar segui-las, mas como vivemos em grupo, existem instâncias reguladoras que limitam nossas loucuras. Funciona da seguinte maneira: se algum cidadão decide que é melhor inverter a ordem dos semáforos de carro e baixa um decreto que no vermelho devemos seguir em frente e no verde parar; deve submeter suas idéias às instituições legais que são compostas por pessoas democraticamente eleitas. Mesmo que sua tese seja fruto de pesquisas científicas, ele não poderá aplicá-la simplesmente porque acredita nela. No âmbito privado temos algumas liberdades, mas da porta de casa para fora, não.

Isso é o que mais chama atenção na distribuição do livro “Por uma vida melhor”. Esclareço: Esse livro foi distribuído para 500.000 alunos do ensino fundamental das escolas públicas do nosso país pelo Ministério da Educação, recentemente. Desde então, tem provocado a indignação de todos pela tese que sustenta: a que não existe certo ou errado na língua portuguesa e a norma culta seria apenas uma forma de expressar-se. Vai além ao dizer que corrigir um aluno que infringe as regras gramaticais dessa norma culta, seria um “preconceito linguístico”. Assim, um erro de concordância entre singular e plural não seria mais um erro e sim uma “variação popular”. Cito um trecho do livro:” Você pode estar se perguntando: Mas eu posso falar ‘os livro?’ Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito lingüístico”.

A tese do livro é que existem duas formas de usar o português e ambas seriam corretas, podendo o falante escolher qual utilizar, mas sempre tomando cuidado para não ser vítima do tal preconceito lingüístico. Dessa maneira, se alguém falar ao seu lado “A gente vamos embora”, você não deverá corrigi-lo, pois ele só está utilizando uma variação popular da língua e se o fizer, está sendo preconceituoso. Como bem resumiu Lya Luft em seu artigo “Chancela para a Ignorância”, publicado na revista Veja dessa semana: Melhor seria fechar as escolas! Se é para permanecer como somos, a escola é supérflua.

Em outros momentos da história brasileira já acompanhamos essa mesma tentativa de inversão perversa de normalizar a ignorância. O raciocínio é simples: se 62% dos alunos são incapazes de interpretar textos no final do ciclo escolar, melhor tornar oficial a ignorância. Se não existir certo ou errado, ninguém erra mais e essas estatísticas param de nos jogar para baixo, certo? As vítimas dessa mediocridade são justamente aqueles brasileiros que deveriam ter na escola a oportunidade de aprender o português correto para ascenderem na vida e esse direito lhes é tirado no lugar que deveria zelar por ele. Como escrito, manobras como essas já aconteceram em outros tempos no Brasil, mas graças ao acesso às informações, são descobertas e criticadas a tempo.

Quer dizer, mais ou menos a tempo, pois o referido livro já foi incluído entre os comprados pelo Programa Nacional do Livro Didático. Aí volto na dúvida do começo: Quem autorizou a compra? Que os autores do “Por uma vida melhor” pensem assim, sustentem suas teses e publiquem em um livro, é um direito deles. Mas, quem compra e distribui para os alunos brasileiros é gente que supomos que entende do assunto e nos representa em questões educacionais; gente competente paga com nossos impostos para estar na Secretaria da Educação. Quem arcará com os prejuízos? Ora, existe sim um português correto e todos tem o direito de aprendê-lo nas escolas brasileiras.

É muito preocupante imaginar que quem deveria zelar pelo português correto, banaliza o erro e considera preconceituoso o ensino correto. Parece a reprise de um velho filme político, que se aproveita da ignorância para dar “os pão e levar nu circo”.
 
Fonte : Dra. Renata De Luca Publicado : 26/05/2011
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