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Dicas de Saúde / Psicologia
 
Acabou o remédio, e agora?
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Na última semana, pais tiveram dificuldade em encontrar o remédio metilfenidato nas farmácias de Presidente Prudente, pois estava em falta devido ao excesso de vendas. Esse remédio é usado para hiperatividade e déficit de atenção, pois aumenta a concentração e diminui a inquietude de quem toma, melhorando o foco e consequentemente o rendimento na aprendizagem. Sua primeira versão tinha uma ação concentrada em um curto período de tempo e a maneira mais comum de usá lo era tomando antes de ir para escola, para que agisse lá. Depois foi lançado uma versão que age por mais tempo, pois existem as lições de casa, as atividades extra curriculares, além da necessidade de ter filhos mais sossegados em casa e que respondam quando são chamados pelos pais. Afinal, é muito desgastante mandar tomar banho e chamar para comer várias vezes, sem ser obedecido.

O consumo dessas drogas não pára de crescer (ao ponto de faltar!) e novos nomes comerciais surgem nos congressos de medicina, pois vendem, e muito. Como muitos produtos, esses remédios também tem sazonalidade e vendem mais no período de aula, visto que nas férias as crianças podem ficar sem, pois é permitido que se desliguem e se mexam à vontade. Já em maio e outubro, as coisas se complicam! Durante muitos anos, observo o aumento das queixas escolares nesses dois meses, geralmente depois das reuniões escolares, onde os pais são chamados para tomar providências, pois o rendimento dos filhos está abaixo do esperado. Já se foram as avaliações, os professores conhecem bem o aluno e o resultado está abaixo do esperado, fora do normal. Mas ainda o caso não está perdido, dá tempo de tomar providências buscando ajuda dos especialistas, levando nos professores particulares e promovendo mudanças que acelerem o rendimento. Já em junho e novembro, a coisa complica.

O consumo desenfreado desse tipo de droga tem dividido especialistas: uns acreditam no milagre reparador da droga; outros acusam de estar drogando as crianças ao invés de tornar a educação mais interessante, os professores melhor preparados e os pais mais educadores. Todos tem um pedaço de razão: de fato, o remédio traz muita melhora de atenção e comportamento, mas há um excesso, além de um viés que medicaliza a educação.

Medicalizar a educação é transformar em doença questões que deveriam ser tratadas de outra maneira, em geral mais difícil e ampla, sem reduzi la ao problema de um sujeito, mas abordando como uma questão social. Dessa forma, profissionais apontam que algumas escolas não sabem lidar com crianças criativas, adolescentes velozes e alguns pais não sabem impor limites aos filhos, mas que, ao invés de transformarem tudo isso, reduzem o problema a uma doença na criança. Alguns grupos inclusive questionam a existência da hiperatividade, do déficit de atenção e da dislexia, dizendo que esses quadros não são doenças e sim sintomas de um mal estar contemporâneo, pois não há evidências clínicas da existência desses quadros, apenas suposições e as respostas aos questionários que são preenchidos durante o diagnóstico, cujas respostas podem ser absolutamente tendenciosas, segundo eles.

Assim como existem as associações para portadores desses quadros, também há o Fórum Nacional sobre a Medicalização na Educação e na Sociedade, onde representantes de várias instituições (da saúde, educacionais e jurídicas) se reúnem há um ano para organizar um contraponto aos excessos de medicalização dos transtornos escolares. Esse grupo acaba de definir seu regimento e proporá diversas ações de intervenção que visam questionar o uso de remédios pelas crianças.
Quem tem razão? Ambos, pois a razão geralmente nunca é unilateral e pensar assim já colocou a humanidade em várias confusões onde cada grupo matava para ter sua razão reconhecida. Existem crianças e adolescentes hiperativos e desatentos e devem ser tratados, mas jamais na quantidade que estão sendo diagnosticados. Tudo se resume a um diagnóstico bem feito, que não deve ser reducionista, inocente, nem que acredite na pílula mágica. Não é verdade que remédio é igual a água com açúcar e a fórmula do vamos tentar para ver se melhora é quase pecaminosa.

O remédio só deve ser dado a partir de um diagnóstico bem feito e acompanhado de outras ações que em geral, são mais indigestas e não descem fácil com um copo de água: buscar bons professores, deixar o método pedagógico mais atrativo para os alunos, implicar os pais em conseguir dar limites e tirar os excessos dos filhos. Outro dia, conversava com um professor de geografia que desenvolveu um software capaz de mostrar em 3D o relevo do solo, possibilitando mostrar isso em classe para os alunos do ensino médio. Seus colegas não utilizavam, pois tinham medo da informática e preferiam a conhecida caixa de giz. Se esse professor manda um aluno para fora porque está desatento e o pai leva no especialista que medica com essas drogas, eu pergunto: quem deverá tomar o remédio?
 
Fonte : Dra. Renata De Luca Publicado : 02/06/2011
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