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Dicas de Saúde / Psicologia
 
Melancolia
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Algum dia você já teve uma sensação de vazio bem no meio de uma festa? Perguntou se qual é mesmo a importância daquilo pelo qual esperou tanto? Ou qual é o sentido da sua rotina? Para que mesmo trabalhou, comprou, viajou, reformou?

Isso aconteceu com Justine, a personagem do último filme do cineasta Lars Von Trier (Melancolia, 2011). Na festa do seu casamento, uma tristeza súbita tomou conta dela, justamente em um momento pelo qual ela tanto havia esperado. Um vazio, falta de sentido sem causa, como se o colorido desbotasse até ficar branco e preto. De repente, ela se pergunta o porquê daquilo tudo e descobre uma falta de razão para tanto preparo. Não havia problemas, dúvidas quanto ao passo que estava tomando, memórias tristes ou equívocos; muito pelo contrário, a festa corria dentro do esperado quando uma crise de melancolia tirou a graça para ela.

A palavra melancolia vem do grego mela (negro) e khole (bile), pois Hipócrates (460 377 a.C) acreditava que sua causa era devida a um acúmulo de bile negra. Sim, o mal é antigo e a causa controversa. Freud (1856 1939) trabalhou bastante com esse tipo de depressão, que nem sempre é considerada uma doença, podendo ser um temperamento ou um estado de espírito. No período do Romantismo (sec. XVIII e XIX) era uma característica do herói, transbordante de sentimentalismo. Em tempos psiquiátricos, é considerada uma doença: depressão causada por desequilíbrios neuroquímicos e tratada com antidepressivos.

A melancolia se assemelha ao vazio do luto, mas é diferente, pois não há uma perda, pelo menos não no consciente, pois o melancólico não sabe o que perdeu, mas ele sabe que algo se partiu e a falta de sentido toma conta de tudo. Uma vez, atendi uma mãe que perdeu seu filho mais velho; o garoto de 14 anos saiu para um jogo de futebol e não voltou, pois um infarto interrompeu sua vida, sem dar avisos ou tempo para despedidas. Anos se passaram, a mãe teve outros filhos, mas não se recuperava do luto, continuava vagando sem sentido, sempre com uma caixa de fotos do menino dentro da bolsa. Quando questionada, ela nos lembrava que o sentido da vida pode ser retirado em minutos e então, para que investir nisso tudo? Talvez ela tenha razão, mas para a vida ter graça, precisamos criar alguns sentidos: uma festa, uma compra, uma promoção, um trabalho. Sem isso, o vazio toma conta mesmo.

Todos tiveram crises de melancolia, principalmente os chegados à intelectualidade, pois a descrição dela também se caracteriza por episódios intensos de atividade intelectual. É o banzo do domingo à noite, o canto da festa, a solidão dos eventos sociais, a sombra no fundo da sacola de compras. Alguns pintam um quadro, outros escrevem um texto, ouvem uma música, tomam remédios, falam dela. Há os que flertam com ela todo natal e os que olham nos seus olhos durante todo o ano. De perto ou de longe, a melancolia sempre existiu. Os casos não aumentaram; o que aumentou foi a prescrição de antidepressivos, pois o tempo para produzir é imperativo. Produzir o que mesmo?

Renata De Luca é psicóloga, especialista em psicanálise de crianças e de adolescentes pela USP, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria e diretora de RH do Grupo Segurança. Contato: renatadeluca@uol.com.br
 
Fonte : Dra. Renata De Luca Publicado : 29/08/2011
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